1
Princípio do cooperativismo enfatizado
7º — Interesse pela comunidade
▼
Princípio do cooperativismo enfatizado
7º — Interesse pela comunidade
Destaca o compromisso das cooperativas com o desenvolvimento sustentável das comunidades onde operam. Abrange a promoção da sustentabilidade econômica, social e ambiental, priorizando as necessidades humanas e evitando a exploração. As cooperativas atuam como entidades responsáveis que apoiam não só seus membros, mas o bem-estar geral da comunidade, engajando-se em práticas comerciais éticas e sustentáveis.
ICA, International Co-operative Alliance. Guidance notes to the co-operative principles. Brussels: Principles Committee, 2015.
Embora esse valor estivesse presente desde as origens do cooperativismo, sua formalização como sétimo princípio ocorreu no congresso do centenário da Aliança Cooperativa Internacional, em Manchester. A partir de então, consolidou-se a visão de que as cooperativas devem integrar ações sociais, ambientais e culturais ao seu modelo de negócios.
No Brasil, o princípio é amplamente praticado e incentivado, com destaque para o Dia de Cooperar (Dia C), programa nacional que mobiliza cooperativas em ações voluntárias nas áreas de saúde, educação e meio ambiente. As ações são desenvolvidas ao longo do ano e apresentadas em uma data de celebração coletiva.
A dificuldade central do sétimo princípio não é a boa vontade — é a expertise. Cooperativas frequentemente não dominam a prática de realizar ações comunitárias de forma rotineira e planejada. Daí o valor de iniciativas coletivas como o Dia C: elas permitem observar o que outras cooperativas estão fazendo e replicar o que funciona.
Três cuidados merecem atenção. Primeiro, a ação social precisa caber no planejamento financeiro da cooperativa. Segundo, é preciso evitar criar dependência: quando uma cooperativa subsidia continuamente uma instituição, o dia em que faltar o recurso pode significar o fechamento daquela instituição — o impacto da interrupção precisa ser avaliado antes. Terceiro, é preciso preparar-se para lidar com cooperados que discordarão de determinadas ações; a oposição interna, se não for antecipada, torna-se problema de longo prazo.
Cooperativas de pequeno porte enfrentam dificuldade adicional: recursos e estrutura limitados para desenvolver ações comunitárias de maior alcance.
2
Valores éticos do cooperativismo
Responsabilidade social e preocupação pelos outros
▼
Valores éticos do cooperativismo
Responsabilidade social e preocupação pelos outros
A responsabilidade social e a preocupação pelos outros são valores éticos que se manifestam para além da relação entre cooperados. Enquanto a solidariedade opera entre os membros, esses dois valores se voltam a quem está fora do quadro social: a comunidade, o território, as gerações futuras. São eles que fundamentam o sétimo princípio e que justificam a destinação de parte dos recursos da cooperativa a finalidades que não retornam diretamente aos associados.
3
Vocabulário da Cooperação
Os três setores
▼
Vocabulário da Cooperação
Os três setores
-
Primeiro setor
Representa o Estado, incluindo governos federal, estaduais e municipais, autarquias, empresas públicas e demais entidades públicas, com a finalidade principal de administrar bens públicos e prover serviços essenciais à sociedade.
-
Segundo setor
É constituído pelo setor privado, formado por empresas comerciais que buscam lucro e atuam com base nas leis do mercado, gerando emprego e renda a partir da atividade econômica.
-
Terceiro setor
Corresponde ao conjunto de organizações privadas sem fins lucrativos que desempenham papel social complementar ao Estado e ao mercado. Inclui ONGs, OSCIPs, organizações sociais, fundações, associações comunitárias e cooperativas sociais, atuando especialmente em assistência social, cultura, educação, meio ambiente, saúde e defesa de direitos.
A classificação em três setores é útil, mas revela seus limites quando aplicada ao cooperativismo. A cooperativa é uma entidade privada e sem fins lucrativos — o que a aproximaria do terceiro setor. Mas exerce atividade econômica em concorrência com empresas, produzindo bens e serviços e disputando mercado — o que a aproximaria do segundo. E, em vários momentos da história brasileira, prestou serviços que caberiam ao Estado, aproximando-se do primeiro.
Essa dificuldade de enquadramento não é um defeito do cooperativismo: é o que expressa sua natureza própria, distinta das três categorias tradicionais.
4
Doutrina cooperativista
Cooperativas e empresas: principais diferenças
▼
Doutrina cooperativista
Cooperativas e empresas: principais diferenças
Cooperativas são sociedades de pessoas, com número ilimitado de associados e gestão democrática — cada membro possui um voto, independentemente do capital investido. Empresas são sociedades de capital, com número limitado de sócios ou acionistas e gestão centralizada.
Quanto ao objetivo, as empresas buscam o lucro como finalidade essencial, remunerando acionistas proporcionalmente ao capital investido. As cooperativas objetivam a satisfação das necessidades econômicas e sociais dos cooperados, distribuindo eventuais sobras proporcionalmente à utilização dos serviços.
Quanto às quotas: nas empresas, ações e quotas são livremente transferíveis a terceiros; nas cooperativas, a transferência de quotas-partes a não associados é vedada, preservando a identidade coletiva dos membros.
5
Ramo do cooperativismo
Transporte
▼
Ramo do cooperativismo
Transporte
Organiza profissionais que prestam serviços de transporte de passageiros, cargas, entregas e turismo, garantindo qualidade, dignidade e oportunidades para pequenos e médios transportadores. Nessas cooperativas, os cooperados são donos dos veículos, favorecendo a profissionalização, a segurança e o desenvolvimento econômico em um setor essencial para a mobilidade urbana e regional.
Fonte: OCB, SOMOS COOP
O cooperativismo de transporte abrange cargas, passageiros e transporte escolar, regulamentados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres e por normas específicas para transporte coletivo. As cooperativas de cargas reúnem caminhoneiros autônomos que se organizam para ampliar acesso a contratos com grandes embarcadores, reduzir custos operacionais e compartilhar infraestrutura logística. As de passageiros incluem motoristas de táxi, vans escolares e transporte complementar urbano, que se beneficiam da organização coletiva para obter concessões, padronizar serviços e acessar linhas de crédito.
Uma das funções centrais dessas cooperativas é organizar a distribuição do trabalho entre os cooperados. Muitas adotam sistemas de fila, garantindo distribuição equitativa dos fretes ou das corridas — mecanismo que impede que os mesmos profissionais concentrem as melhores oportunidades e assegura previsibilidade de renda a todos.
O transporte de passageiros é serviço público que o Estado pode conceder ou permitir que o setor privado explore, com restrições e benefícios. O caso dos taxistas é exemplo claro de limitação do número de fornecedores — mecanismo desenhado para manter margem adequada e assegurar qualidade de vida ao profissional. Historicamente, essa limitação conviveu com o transporte informal entre bairros, que surgia exatamente onde o serviço público não chegava ou era caro demais.
A chegada das plataformas digitais alterou profundamente esse equilíbrio. As cooperativas de táxi foram fortemente afetadas, com queda no número de cooperados ou necessidade de forte especialização em serviços de maior qualidade. É um ramo em que a disputa regulatória tem impacto econômico direto e imediato sobre os cooperados.
O cooperativismo não surge quando não há problemas. Cooperativas surgem para resolver problemas.
À medida que trabalhadores de aplicativos percebem o peso da diferença entre o que o passageiro paga e o que eles recebem, cresce o interesse por sistemas próprios de intermediação. Algumas cidades já discutem aplicativos geridos pelo poder público municipal. Para o cooperativismo, essa é uma oportunidade concreta: apresentar aos motoristas a possibilidade de gerirem o próprio sistema, com aplicativo comum e resultado revertido a eles mesmos.
Há, contudo, movimento contrário organizado. Quando trabalhadores de plataformas anunciam paralisações ou reivindicações, é comum que se ofereçam bônus a quem continuar operando e descontos a quem continuar consumindo — mecanismos que fragilizam a ação coletiva no momento exato em que ela se organiza.
Cooperativas de transporte são frequentemente contratadas por outras cooperativas para movimentar sua produção. Cooperativas agropecuárias contratam logística; cooperativas de saúde e de crédito podem contratar transporte de documentos e valores; cooperativas educacionais podem firmar contratos para o transporte de estudantes; e há cooperativas voltadas ao turismo receptivo. É um dos ramos com maior potencial de intercooperação transversal, justamente por prestar serviço de que praticamente todos os demais ramos necessitam.
A função talvez mais relevante do cooperativismo de transporte é o enfrentamento da precarização do trabalho do motorista. O contraste é com a lógica do empreendedorismo individual, em que a pessoa dedica todo o seu tempo, capital e conhecimento e frequentemente recebe muito pouco em troca — acumulando dívidas e perdendo acesso a crédito. O empreendedorismo coletivo dilui riscos que, individualmente, podem ser fatais para o trabalhador.
+ Informações
- ProgramaDia de Cooperar — Dia C
A organização deste caderno — o cruzamento descentralizado de princípios, valores, ramos do cooperativismo e sociologia da cooperação em cada encontro — segue metodologia própria do Prof. Dr. Ícaro Moreira Ursine. Reprodução, total ou parcial, requer citação da fonte e do autor.
Ferramentas de inteligência artificial generativa foram utilizadas como apoio na revisão textual e na adaptação deste conteúdo para diferentes formatos e plataformas.