Cooperativismo
Este material parte de uma premissa específica: no cooperativismo, o equilíbrio de gênero não é uma pauta externa trazida de fora para dentro. Ele decorre dos próprios princípios que fundam o modelo. De uma empresa com finalidade lucrativa não se pode exigir o mesmo — mas de uma cooperativa sim, porque a abertura, a distribuição de poder e a escuta das pessoas estão inscritas naquilo que uma cooperativa se propõe a ser.
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Ponto de partida
Por que exigir isso de uma cooperativa
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Ponto de partida
Por que exigir isso de uma cooperativa
O primeiro princípio costuma ser lido como uma regra de ingresso: qualquer pessoa capaz de usar os serviços e disposta a assumir as responsabilidades pode se associar, sem discriminação de gênero, social, racial, política ou religiosa. Mas a leitura completa vai além. Além de permitir a livre adesão, a cooperativa precisa assegurar livre circulação por toda a sua estrutura — inclusive pelas instâncias em que se decide.
Uma cooperativa em que mulheres entram com facilidade mas não chegam ao conselho não cumpriu o princípio pela metade: ela o cumpriu apenas na formalidade do cadastro.
Historicamente, houve situações em que o princípio da adesão voluntária foi frontalmente violado por normas culturais — inclusive a exigência de que mulheres deixassem de ser membros de uma cooperativa ao se casarem. A igualdade de gênero segue sendo, no plano internacional, uma preocupação que exige esforço deliberado, muitas vezes contra normas culturais que tratam mulheres como subordinadas aos homens.
Fonte: ICA — Guidance notes to the co-operative principles.
De uma empresa não se exigiria isso. De uma cooperativa é preciso exigir — porque incluir, equilibrar poder e ouvir as pessoas está dentro dos princípios cooperativistas.
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Diagnóstico estrutural
O gargalo invisível
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Diagnóstico estrutural
O gargalo invisível
A composição do quadro social de muitas cooperativas já é relativamente equilibrada entre homens e mulheres. Entre os empregados, mulheres frequentemente são maioria — e frequentemente também são a maioria entre quem possui maior formação. A distorção não está, portanto, na entrada. Ela aparece concentrada nos cargos de alta direção, onde a predominância masculina persiste.
Se o problema não está na porta de entrada nem na qualificação, onde ele está? A resposta costuma estar em uma etapa intermediária que passa despercebida.
Em cooperativas de maior porte, o cooperado não vota diretamente na assembleia geral: ele participa de pré-assembleias regionais que elegem delegados, e são os delegados que deliberam na instância máxima. É um mecanismo legítimo de democracia indireta, criado para viabilizar a participação em estruturas com milhares de associados.
Mas é também um filtro. A mulher que não é escolhida delegada não chega à assembleia; não chegando à assembleia, não é vista como quadro para o conselho; não estando no conselho, não integra a direção. Cada etapa parece neutra isoladamente, e o resultado acumulado não é. Quando existe uma mulher na direção, ela costuma ser exceção na cooperativa — não a regra de uma renovação em curso.
O funil não se fecha na assembleia. Ele se fecha antes — na etapa em que se escolhe quem vai à assembleia.
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Fundamentação
Onde a questão aparece nos princípios
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Fundamentação
Onde a questão aparece nos princípios
A não discriminação de gênero consta expressamente na redação atual do princípio. Sua inclusão não veio de fora do movimento: foi proposta pelo próprio Comitê de Mulheres da Aliança Cooperativa Internacional, durante a revisão que resultou na formulação vigente dos princípios. Trata-se, portanto, de autocrítica interna do cooperativismo, e não de imposição externa.
A gestão democrática exige que os órgãos de administração e fiscalização representem aquilo que a cooperativa é. Se o quadro social é composto por metade de mulheres e a cooperativa nunca teve uma mulher no conselho de administração, há algo estruturalmente errado ali — e a constatação não depende de opinião política, mas de coerência com o próprio princípio.
É o princípio que oferece o caminho de correção. Se a cooperativa não identifica quadros femininos preparados para liderança, o instrumento disponível é a formação — trilhas de capacitação, mentoria, preparação para funções deliberativas. Sem isso, a constatação do desequilíbrio permanece como diagnóstico sem consequência.
Ações voltadas à autonomia econômica de mulheres em situação de vulnerabilidade encontram fundamento direto no sétimo princípio. A ACI reconhece inclusive a legitimidade de cooperativas exclusivamente femininas quando o objetivo é superar desigualdade e discriminação estruturais, promovendo melhoria de qualidade de vida dessas mulheres e de suas famílias — como no caso da associação de mulheres trabalhadoras autônomas na Índia.
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Instrumento de análise
O teste das três hipóteses
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Instrumento de análise
O teste das três hipóteses
Quando uma cooperativa afirma que não há nenhuma mulher com capacidade e formação para assumir cargo de liderança, restam apenas três explicações possíveis:
As três hipóteses
- Há um erro no recrutamento e seleção — a cooperativa não está atraindo ou contratando mulheres em posições que levam à liderança.
- Há um erro na identificação de líderes — as mulheres estão lá, mas não estão sendo reconhecidas como quadros potenciais.
- Há um erro na formação — a cooperativa não ofereceu a essas profissionais as condições de desenvolvimento que ofereceu a outros.
Não existe uma quarta hipótese. Em qualquer dos três casos, a resposta é a mesma: modificar o processo. E os três casos são resolúveis por decisão da própria cooperativa.
Diagnóstico da sua cooperativa
Preencha com os dados atuais
| Percentual de mulheres no quadro social | ______% |
| Percentual de mulheres entre os empregados | ______% |
| Percentual de mulheres em cargos de coordenação e gerência | ______% |
| Percentual de mulheres entre os delegados eleitos | ______% |
| Percentual de mulheres no Conselho Fiscal | ______% |
| Percentual de mulheres no Conselho de Administração | ______% |
| Percentual de mulheres na Diretoria Executiva | ______% |
Compare os números de cima com os de baixo. O ponto em que a queda é mais acentuada indica onde está o gargalo da sua cooperativa — e, portanto, onde a intervenção precisa ser feita. Se a cooperativa não dispõe desses dados, esse é o primeiro achado do diagnóstico: não se corrige aquilo que não se mede.
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Caminhos possíveis
Como fomentar a participação
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Caminhos possíveis
Como fomentar a participação
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Atacar o gargalo onde ele está
Se o filtro é a escolha de delegados, é ali que a ação precisa acontecer: divulgação ativa das pré-assembleias, formação sobre o papel do delegado, e acompanhamento da composição por gênero de cada eleição regional.
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Trilhas de liderança e sucessão
Programas estruturados de formação — gestão financeira, educação cooperativista, oratória, protagonismo — com duração definida e turmas recorrentes. O modelo já é utilizado com sucesso para atrair jovens ao cooperativismo e pode ser aplicado com a mesma lógica.
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Medir periodicamente
Pesquisa interna recorrente sobre a presença feminina em cada nível hierárquico, com resultado apresentado em assembleia. A série histórica revela se há progresso real ou apenas discurso.
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Cotas: o debate honesto
É possível estabelecer reserva de vagas em conselhos ou chapas, e a ACI não rejeita o instrumento. Mas alerta: cotas não resolvem o problema de fundo, porque a diversidade sustentável precisa se tornar natural no longo prazo. A cota pode abrir a porta; ela não substitui a formação de quadros nem a reflexão cotidiana dos cooperados.
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Ouvidoria e canais de escuta
Uma ouvidoria — ou um ombudsman ligado à área de conformidade — permite que reclamações sobre processo eleitoral, acesso à informação e barreiras de participação sejam ouvidas e tratadas formalmente, e não dependam da disposição individual de quem está na direção.
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Infraestrutura de acolhimento
Ações pequenas constroem confiança concreta. Disponibilizar itens de higiene menstrual nos banheiros da cooperativa, por exemplo, sinaliza a cooperada, a colaboradora e a visitante que aquele é um espaço em que ela pode contar com apoio em uma emergência — sem constrangimento e sem precisar pedir a alguém.
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Documentação e autonomia financeira
No meio rural, a participação começa antes da assembleia: passa por ter documentação regularizada e cadastro próprio. Sem isso, a mulher não acessa crédito, não figura como titular e não é reconhecida como sujeito econômico dentro da própria unidade familiar.
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Cooperativas exclusivamente femininas
Admitidas quando voltadas à inclusão econômica de mulheres em situação de vulnerabilidade social, funcionam como instrumento de superação de desigualdade em contextos nos quais elas são nitidamente desvalorizadas no ambiente misto.
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Indutores externos
Quando a política pública muda a regra do jogo
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Indutores externos
Quando a política pública muda a regra do jogo
Programas públicos de aquisição de alimentos passaram a ranquear as propostas concorrentes considerando a composição das entidades: cooperativas e associações com maior número de mulheres, tanto no quadro de cooperados quanto entre dirigentes, recebem pontuação superior. O mecanismo não obriga ninguém — apenas altera o cálculo de quem quer vencer o edital.
O efeito prático é observável: cooperativas de agricultura familiar passaram a registrar presença feminina maior justamente onde essa regra se aplica. A lógica é a mesma já utilizada em políticas de transferência de renda urbanas, que fortaleceram o protagonismo feminino ao definir quem seria a titular do benefício.
A regra pode não agradar a todos. Mas é como o impedimento no futebol: uma vez que é a regra, joga-se com ela — e o jogo muda.
Outro indutor é o cadastro da agricultura familiar, que passou a permitir o registro completo da unidade familiar e a titularidade feminina. O crescimento do número de mulheres titulares tem efeitos que vão além do simbólico: alcança acesso a crédito, a programas específicos e a benefícios previdenciários vinculados ao tempo de cadastro regular.
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Situações discutidas em sala
Casos
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Situações discutidas em sala
Casos
Uma presidente de cooperativa participou de um encontro internacional de dirigentes e, na fotografia oficial, era a única mulher entre todos os presentes. Anos mais tarde, retornou ao mesmo evento — e o número de mulheres na foto superou o de homens. Ela mesma enviou a imagem à equipe da cooperativa, que a transformou em comunicação interna.
Para pensar: a mudança na foto reflete uma mudança nas estruturas, ou apenas a chegada das primeiras exceções?
Um grande sistema de crédito cooperativo passou a realizar pesquisas periódicas sobre a quantidade de mulheres em cargos de direção, em conselhos e em funções de gestão nas cooperativas filiadas, acompanhadas de ações de incentivo. A decisão de medir precedeu a decisão de agir — e tornou o problema visível para quem antes não o enxergava.
Para pensar: por que tantas cooperativas não sabem responder qual é o percentual de mulheres em seus conselhos?
Uma cooperada fundadora, com décadas de vínculo, deixa de participar diretamente das decisões quando a cooperativa cresce e adota o sistema de delegados. Sua opinião passa a depender de que o delegado eleito na sua região a leve adiante — e há relatos frequentes de que as pré-assembleias funcionam mais como apresentação de resultados do que como instância de deliberação real.
Para pensar: como preservar a voz de quem construiu a cooperativa quando a estrutura de decisão se torna indireta?
A organização deste caderno — o cruzamento descentralizado de princípios, valores, ramos do cooperativismo e sociologia da cooperação em cada encontro — segue metodologia própria do Prof. Dr. Ícaro Moreira Ursine. Reprodução, total ou parcial, requer citação da fonte e do autor.
Ferramentas de inteligência artificial generativa foram utilizadas como apoio na revisão textual e na adaptação deste conteúdo para diferentes formatos e plataformas.